Ednei Caminhas

Forasteiro de sucesso

Ednei Caminhas


A novela imita a vida. Quem pode mais no desafio: a força bruta ou a força do sonho? O poder dos músculos ou o poder da mente? Um duelo marcado. Quando a vida recria a arte, o sonho ganha novas respostas e outras pátrias.
Numa pequena cidade do Texas, um forasteiro chama a atenção, arranca suspiros e sorrisos.

Um cinturão feito de ouro, prata e diamantes é a recompensa do caubói vencedor de duelos contra os touros.
"Antes de começar a montar em bois nos rodeios, eu gostava muito de assistir a filmes de bangue-bangues”, conta o campeão mundial Ednei Caminhas. Script bem decorado para o longa-metragem de uma vida.

Fantasia e mundo real têm agora o mesmo cenário. O fã dos filmes de bangue-bangue realizou o sonho de todos os caubóis: conquistou o Texas. O faroeste tem como mocinho um brasileiro, temido no território dos vaqueiros.

Ednei Caminhas é um astro americano, campeão no ano de 2002 do maior rodeio do mundo: o Professional Bull Riders (PBR). São US$ 5 milhões em prêmios; 180 peões selecionados nos quatro continentes. Atração para televisões de 30 países. Show tradicional na terra do espetáculo.

"Para mim já é uma vitória muito grande ser reconhecido nos Estados Unidos”, comemora Ednei.


"É realmente o melhor campeonato do mundo. Então, a fivela que Ednei carrega não é só um ornamento, ela fala o que ele é realmente”, comenta o bicampeão mundial Adriano Moraes.


O melhor do mundo aos 27 anos. O segundo brasileiro a conquistar o título e o primeiro a vencer por antecipação.
Em cinco anos, ganhou US$ 1 milhão. O homem simples, criado na roça, agora fala duas línguas. Mas já passou por maus bocados.

"Eu pensei que estivessem falando de um torneiro, mas era um tornado que estava vindo”, conta ele.

Perigoso como o tornado é o touro antes da montaria. Amarillo, leste do Texas.
Antes da prova, é preciso preparar o espírito e o corpo. Enquanto uns se aquecem, Ednei caminha na contramão. "Eu não aqueço, só fico quieto num canto, esperando a hora”, conta.

E lá vai o peão para a eternidade dos oito segundos. Os americanos fazem fila para ver de perto o caubói brasileiro, ganhar um autógrafo. Nos Estados Unidos, ele é tratado como celebridade. Muletas amparam o ex-peão Walter Louis, que caiu do cavalo. O sonho continua – agora, projetado no ídolo. "Ele é mesmo bom, é o meu número um”, elogia.

Para ser o número um no coração dos americanos, ele leva uma vida cigana. Monta de quinta a domingo, percorre até 10 mil quilômetros por semana. Gosta de levar as filhas e a mulher, Alessandra, em uma casa motorizada, com espaço para o fã-clube.

Ednei mora no condado de Denton, a 70 quilômetros de Dallas. Comprou uma casa confortável em um condomínio de luxo, no bairro Hickory Creek.

"Ele me consulta em tudo o que faz. Somos um casal unido e ele pede minha opinião em tudo”, diz Alessandra. Com a aprovação dela, Ednei assinou três contratos publicitários. Engordou a conta bancária e garantiu o uniforme de trabalho. Fica até perdido na hora de escolher o chapéu. "É minha segunda casa, porque eu fico debaixo dele direto”, brinca.

No Texas, a vitória é profissional. Mas a felicidade não está lá. "Consegui tudo no rodeio, montando em touro. Mas quero viver com minha família no Brasil”, diz ele. O futuro fica a onze horas de avião e mais algumas de carro até o interior de São Paulo.

Quanto tempo se leva para realizar um sonho: 30, 40, 50 anos? Em alguns casos, uma vida inteira. Para Ednei Caminhas, a porteira do sucesso se abriu em apenas oito segundos. Logo no primeiro ano de rodeio nos Estados Unidos, ele faturou quase US$ 40 mil numa única noite. Dinheiro suficiente para comprar um sítio. Parece mentira, mas o recanto da família Caminhas foi construído em apenas oito segundos.

No sítio, em Presidente Alves, próximo a Bauru, o peão investe na criação de gado. É o leitinho das crianças. "Ter um touro e cuidar dele é uma paixão”, diz Ednei.

A montaria que valeu o sítio e garantiu essa paixão foi em cima de um touro americano invicto durante quatro anos. O temido Dillinger virou souvenir. "Peguei ele na final mundial. O presidente da festa disse que foi muita sorte ter parado nele. No ano seguinte, parei nele de novo. Só eu consegui parar nele quatro vezes. Hoje o touro está aposentado”, conta Ednei.
Mas o desafio no Brasil é outro: o título de campeão em Barretos e o duelo com o touro Bandido. É uma longa preparação. A vida inspirando a novela. Olho no olho: o campeão mundial contra o boi mais famoso do país. O sonho de uma vida contra uma tonelada de músculos.

Em 2004, Ednei ficou menos de dois segundos em cima de Bandido. O peão caiu, mas o sonho continua de pé. "Se você acreditar muito em Deus, tiver muita fé e nunca desistir dos sonhos, você consegue”, aconselha.

Ednei já ganhou 17 motos e nove carros. Mas trocaria tudo pelo cinturão do maior rodeio do Brasil. "Se eu ganho lá fora, por que não em Barretos?”, questiona. Na última edição da festa, este ano, nosso caubói ia muito bem. Mas, de novo, o touro levou a melhor. Ednei levou 38 pontos no rosto. Duas semanas depois, estava de volta à arena.

"Não posso desanimar nunca porque amanhã tenho outro boi para montar. Se desistirmos, somos perdedores”, comenta o peão.

De onde vem tanta paixão? Para o psiquiatra Paulo Gaudêncio, especialista em decifrar a alma humana, o vencedor é aquele que perde o medo do fracasso. "O indivíduo que teve coragem de colocar o sonho como projeto, se apaixona por ele e corre atrás. E um dia ele vai concretizar isso. Mas quem puser outro obstáculo na frente, outro desafio, vai passar a vida feliz, apaixonado, e vai concretizar o sonho”, diz.

Para encontrar as raízes dessa coragem, a equipe do Globo Repórter pegou uma estrada de terra até Indaiatuba, perto de Campinas. Em uma fazenda começa a história do menino inquieto, como os cavalos que amansava.

Capataz e peão de fazenda, o pai dele, seu Anei Caminhas, foi o último a saber da paixão do filho. "Perguntei que negócio era aquele de estar montando em bezerro sem falar comigo. Ele disse que estava brincando”, lembra.

A molecagem virou coisa séria. Seu Anei construiu uma arena simples na fazenda. Uma cerca de ferro se fechou para libertar um sonho.

"Foi o instrumento certo. Hoje ele é campeão mundial e um orgulho para os amigos”, comenta Nélson Eugênio Filho, amigo de infância.

A coragem do filho e o apoio do pai: juntos, nem o boi Bandido poderia derrubá-los.


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Texto extraido da Site Globo Reporter
Fotos: Site Oficial da PBR